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08/06/2010 • 17:11
O suspensório


Sabe, fotos antigas me causam apreensão. Principalmente aquelas das décadas de 20 e 30 onde uma família inteira está retratada. Normalmente, nestas fotos há uma criança de colo ou um menininho de suspensório, com ar triste. Aliás, em função da coloração sépia, todos sempre têm cara de triste ou de doente. Tudo parece melancólico, inclusive a vegetação, devido à ausência das cores naturais. As roupas e os penteados também colaboram decisivamente para o quadro tornar-se depressivo. Porém, o que me incomoda é que, via de regra, todos já morreram, com exceção da criancinha de colo ou do menininho. Pois este, provável detentor da foto, naturalmente octogenário, agora também se encontra no fim da vida. Fora isso, junte-se um dia de inverno, chuvoso, com uma seqüência de dias interminavelmente fechados e escuros, e o que é que vêm a nossa mente ao nos depararmos com fotos do gênero. Sei que nem todos pensam assim, porém isso me faz lembrar que a vida é finita. E curta! E rápida! Num piscar de olhos somos lembranças do passado e passamos a figurar nestas fotos, com a única vantagem delas serem coloridas. Que a vida é finita todos sabemos, mas que é rápida e curta, poucos percebem; e se percebem, nada fazem para mudar o seu estilo de vida. Muitas vezes me pergunto por que nos estressamos tanto? Por que levamos tão a sério coisas irrelevantes? Por que somos tão intolerantes com os erros dos outros e os compreendemos tão pouco? Sei lá, guardo minhas teorias para mim, porque a resposta deve estar dentro de cada um ou, pelo menos, deveria estar.

Às vezes, brincamos de passado e tiramos fotos antigas quando vamos à Serra Gaúcha, porém, por mais que nos esforcemos, não conseguimos recriar a atmosfera triste daquela época esmaecida. Talvez porque sabemos que essas fotos são de confraternização e não registros do passado. Tristeza é procurar os sobreviventes destes registros.

Sou um sujeito bem resolvido e adoro fotografar, porém, inconscientemente, nunca gostei de retratar pessoas que são, nas milhares de foto que possuo, meros coadjuvantes. No entanto, num dia desses, encontrei uma foto minha de suspensório, ao lado de três dos meus irmãos. Talvez um dia ela seja publicada no jornal e alguém encontre no menininho, o único sobrevivente.

Sabe, se me fosse permitido um único desejo, pediria angustiado, para retroceder o bastante no tempo para convencer minha mãe a colocar também neles um suspenso rio...
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CÉSAR PESSIN
Administrador de empresas
 
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